quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Inferno verde X Paraíso de Pedra


Há  algumas décadas, quase tudo o que se referia à selva, às grandes matas virgens, recebia uma conotação negativa, de perigo, de ameaça, de mistério. Assombrados pelos contos fantasiosos sobre os perigos que rondavam aqueles reinos, a grande maioria evitava qualquer contato, com pavor até do que poderia lá encontrar. Serpentes, animais ferozes, plantas venenosas, canibais e muitas outras ameaças à vida humana. Realmente, a imagem transmitida era a de um verdadeiro inferno, onde as forças maléficas espreitavam os incautos
.
     Nesse clima de negatividade, aliado à ganância humana, incentivada pela má interpretação bíblica, houve um grande incentivo à devastação e depredação do “hediondo” inferno verde, florestas milenares de riquezas incalculáveis de flora e fauna. Diz a Bíblia: “Disse Deus mais: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente, as quais se acham sobre toda a face da terra, e todas as árvores em que há fruto e dê semente; servirvos-ão para mantimento. A todos os animais selvagens e a todas as aves do céu e a tudo que se arrasta sobre a terra, em que há vida, tenho dado todas as ervas verdes para lhes servirem de mantimento; e assim se fez.” Gênesis, 1:29-30)

     Em contraposição ao crime ambiental, foram construídos os paraísos de pedra, ferro e cimento. Aglomerados gigantescos onde as pessoas vivem empilhadas em cubículos minúsculos e onde as matas são admiradas em quadros, pinturas e em pequenos vasos de ornamentação. O solo, calçadas e vias públicas são cimentadas e asfaltadas como se fosse vergonhoso expor a terra com sua cobertura vegetal natural no idolatrado “paraíso” artificial.

     O grande engano do “homo sapiens”, que se acha o centro e dono único da vida planetária, tem custado muito caro à espécie humana e aos bens e riquezas naturais. Nenhum predador irracional foi tão perigoso na história planetária, pondo em risco o equilíbrio vital para todo o globo terrestre. Os elementos naturais evoluíram e se estabeleceram há milhões de anos e permitiram as condições para o aparecimento do homem, apenas há poucos milhares de anos.

     Pelos sintomas climáticos atuais – que não são poucos e nem agradáveis – poderemos prever as péssimas condições para a vida humana no futuro. Deveremos investir ainda mais nas megalópoles de pedra e ferro? Aprenderemos a conviver em parceria com o reino vegetal, com equilíbrio e respeito? O reinado humano está em crise interna, em si mesmo, e externamente com os demais reinos da natureza. Perdemos o rumo e os sinais são evidentes e concretos. 

Somos o resultado da soma da contribuição dos reinos mineral, vegetal e animal e outros. O reino hominal poderá estar sendo rejeitado pela grande maioria dos outros reinos, e pela nossa crise interna não percebemos ainda. Seremos banidos, expurgados, exilados? Mas, para onde? Algum outro planeta poderá nos acolher?


     Talvez tenhamos que recordar para aprender com o passado, com nossas tradições primitivas da infância da humanidade, suas lendas, seus mitos, seus ensinamentos rústicos mas que sinalizavam o respeito para com as energias naturais do planeta. Como crianças da raça humana, endeusavam e personificavam todas as energias que nos rodeiam, interpenetram e nos sustentam. 

Hoje, a ciência deslumbra-se com o potencial infinito destas forças naturais; usou-as para o crescimento tecnológico e aplicou-as para melhorar as condições humanas e naturais, mas criou também o orgulho e a soberba. Perdemos a humildade, o respeito para com a Natureza, queremos subjugá-la aos nossos caprichos superficiais. Nos rebelamos, como crianças que querem dominar e maltratar seus pais, e as reações são inevitáveis.

Se desrespeitamos as águas, desrespeitamos a nós mesmos, pois somos compostos de água , temos em nosso corpo os minerais do solo, temos a flora intestinal como as florestas, nossos pulmões são como árvores que nos ligam ao reino dos ares. É o calor do Sol que nos alimenta direta e indiretamente pelos alimentos. Não sejamos ingratos, pois quem desrespeita a criação, desrespeita também o CRIADOR. 

Texto de Iran Waldir Kirchner 
Foto Ilustrativa 

Nenhum comentário:

Postar um comentário